A flexibilização que favorece os
mercados emergentes

Russ Koesterich |24 set 2019

Russ explica por que as políticas repentinamente mais fáceis dos bancos centrais podem ser fundamentais para os mercados emergentes.

Durante a semana de 17 de junho, quase todas as classes de ativos, desde a dívida do mercado emergente até bitcoins, subiram. O catalisador? O mesmo responsável pelo mercado altista de 10 anos: uma política monetária mais fácil. Isso sugere que embora bancos centrais estranhamente mesquinhos possam ter prejudicado ativos arriscados no ano passado, 2019 está se preparando para ser mais um ano de ganhos impulsionados pela liquidez.

Nesse cenário, os ativos alavancados para condições financeiras provavelmente terão alguns dos melhores desempenhos. Incluídos entre eles as ações de mercados emergentes (EM).

Desde o final de fevereiro, o índice MSCI Emerging Market tem permanecido estável. Por outro lado, as ações dos mercados desenvolvidos ganharam cerca de 5%. Com a recente mudança dos bancos centrais, pode ser hora de as ações dos EM começarem a se recuperar.

Custo-benefício

A compra de mercados emergentes em um momento de desaceleração do crescimento global e atritos comerciais persistentes parece inoportuna. Com certeza, tanto a economia quanto o comércio representam ameaças reais à classe de ativos, bem como ao mercado mais amplo. Dito isto, para aqueles investidores que acreditam que o comércio vai ferver, mas não entrar em erupção, e que a economia global continuará a crescer, há um argumento poderoso apoiando as ações dos EM: a perspectiva de condições financeiras materialmente mais fáceis.

Durante a última década, tanto o sentimento dos investidores quanto a economia em geral ficaram cada vez mais à mercê dos bancos centrais. Mas enquanto tanto as ações dos mercados desenvolvidos quanto as ações dos emergentes se beneficiam do dinheiro mais fácil, os mercados emergentes historicamente se beneficiaram mais. Isto é particularmente verdade na era pós-crise.

A natureza mutável dessa relação é evidente nos dados. De 1990 até o final da crise financeira, mudanças mensais nas condições do mercado financeiro, medidas pelo Índice Goldman Sachs Financial Conditions (GSFCI), explicaram aproximadamente 40% da variação nos resultados dos EM.

Desde 2010 e do advento do quantitative easing (QE, ou, em uma tradução livre, afrouxo monetário quantitativo), as mudanças nas condições financeiras explicaram mais de 75% da variação nos resultados dos EM (ver Gráfico 1). E enquanto as mudanças nas condições financeiras também explicam uma porcentagem similarmente grande dos retornos dos mercados desenvolvidos, historicamente o beta para mercados emergentes tem sido maior. Em outras palavras, quando as condições financeiras são flexibilizadas, os mercados emergentes geralmente obtêm um impulso maior do que os desenvolvidos.

Condições financeiras vs. ações de mercados emergentes, de 2010 a hoje

Condições financeiras vs. ações de mercados emergentes, de 2010 a hoje

Fonte: Bloomberg, ao 21 de junho de 2019.

É por isso que os anúncios da semana passada foram particularmente relevantes para os EM. Primeiro, o Banco Central Europeu e, depois, o Federal Reserve deram uma indicação clara de uma guinada para um dinheiro mais fácil. A mudança subsequente nas taxas, o dólar e os spreads de crédito imediatamente levaram a uma facilitação das condições financeiras, evidenciada pela queda acentuada no GSFCI.

Em contraste com 2018, os bancos centrais não estão mais falando sobre “política de normalização”. Em vez disso, há um foco renovado em fornecer proteção contra aspectos negativos para a economia global. Nesse tipo de ambiente, geralmente são os ativos mais arriscados que mais ganham.

Russ Koesterich
Russ Koesterich
CFA, é Gerente de Portfólio para a equipe de Alocação Global da BlackRock.
Russ Koesterich, CFA, JD, Managing Director and portfolio manager, is a member of the Global Allocation team within BlackRock's Multi-Asset Strategies Group.   Mr. ...