COMENTÁRIO GLOBAL SEMANAL

Receios com os desinvestimentos de outubro em destaque

15 out 2018

Pontos principais

  • Mantemos nossa preferência por ações à renda fixa, mas reiteramos a necessidade de se concentrar na resiliência dos portfólios com o aumento das incertezas.
  • As ações caíram, derrubadas pelos papéis de crescimento e momentum. O medidor de volatilidade VIX atingiu seu ponto mais alto desde fevereiro. Começou a temporada de divulgação de resultados trimestrais.
  • A divulgação dos resultados do terceiro trimestre e o guidance das empresas devem esclarecer como as tarifas podem afetar o sentimento dos negócios e o crescimento global.

Condições financeiras mais restritas e o aumento das preocupações com o impacto das tensões comerciais entre EUA e China estão espantando os investidores e ajudando a estimular a retração das ações este mês. Mantemos nossa preferência pelo risco seletivo, ainda que as movimentações recentes do mercado reforcem nossa posição pela construção de maior resiliência nos portfólios.

Gráfico da semana: comparação de rendimento de ativos entre janeiro e outubro de 2018

As taxas de juros mais altas são um dos principais fatores a contribuir para as condições financeiras mais restritas este ano. As expectativas do mercado com futuras elevações dos juros pelo Federal Reserve se ajustaram para cima e vão ao encontro da nossa perspectiva de cerca de três aumentos de juros nos próximos 12 meses. O resultado: rendimentos mais elevados em títulos de curto prazo são responsáveis pela maior concorrência por capital. Isso está contribuindo para a queda dos preços das ações, que reflete o aumento dos rendimentos dos ganhos e dos rendimentos dos títulos. O recente movimento ascendente nos rendimentos dos títulos foi impulsionado por taxas reais mais altas e não por expectativas de inflação. Veja as áreas azul-claro e verde no gráfico acima. Também contribuiu o aumento do prêmio por prazo, ou seja, a demanda de retorno adicional dos investidores por manterem dívidas de longo prazo. Os investidores redefiniram suas necessidades de retorno em diversas classes de ativos diante da elevada incerteza e do aumento dos rendimentos de curto prazo. Esse reajuste aumentou desde o início de outubro.

Fortalecendo portfólios

Parte da queda recente do mercado de ações ocorreu por conta do nervosismo com uma possível intensificação dos conflitos comerciais entre EUA e China. Algumas empresas globais manifestaram preocupação com o comércio na semana passada, o que alimentou a incerteza dos investidores com a sustentabilidade do crescimento e a perspectiva de ganhos. Nosso medidor de risco geopolítico despencou nas últimas semanas, mas as tensões comerciais entre EUA e China são grandes, e acreditamos que elas sejam a maior ameaça global à expansão liderada pelos EUA. Os indicadores de crescimento do GPS da BlackRock apontam para um forte crescimento global com inflação baixa e não mostram as tensões comerciais prejudicando a atividade econômica. Contudo, a ameaça negativa representada pelo protecionismo comercial ainda pode continuar ganhando força devido a cadeias de valor corporativas altamente integradas pelo mundo. Para tanto, será fundamental acompanhar a temporada de divulgação de resultados do terceiro trimestre.

A queda do Índice MSCI World na semana passada foi a segunda maior queda semanal do índice em 2018, embora as ações globais tenham se mantido num cenário positivo no acumulado do ano. Os mercados acionários têm tido grande alternância na liderança, com ações de momentum apresentando desempenho inferior após uma sequência de fortes ganhos. Acreditamos que a maior parte da recente pressão de venda foi motivada por fundos de hedge que liquidaram posições popularmente disputadas, sobretudo nos setores de tecnologia e crescimento. O aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA com vencimento de dez anos no início da semana passada ocorreu após comentários agressivos de representantes do Fed terem fomentado as expectativas do mercado com relação à estratégia da taxa nominal de juros dos EUA. O aumento dos rendimentos do mercado tem sido impulsionado por juros reais mais altos e por um prêmio por prazo mais elevado, o que é muitas vezes associado a uma maior incerteza.

Ainda vemos os lucros das empresas apoiados pelo crescimento global sustentado acima da tendência e mantemos nossa preferência por ações em comparação à renda fixa. No entanto, reiteramos nosso alerta em prol do foco na resiliência dos portfólios. As empresas que decepcionaram nos ganhos do terceiro trimestre e no guidance do quarto correm o risco de sofrer um prejuízo acentuado. Preferimos exposições a qualidade em ações e damos preferência aos EUA entre os mercados desenvolvidos por conta da resiliência dos ganhos e dos balanços patrimoniais mais sólidos. Na renda fixa, preferimos os títulos de dívida de curto prazo, mas estamos começando a ver oportunidades além da curva de rendimento nos EUA e na Europa. Em longo prazo, o aumento dos rendimentos deve acabar indicando maiores retornos em classes de ativos. Contudo, vemos boas razões para os riscos permanecerem elevados ou aumentarem ainda mais em curto prazo, pressionando os retornos.

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Data:Evento
16 de outubro Índice de preços ao produtor e CPI da China; índice de sentimento econômico ZEW da Alemanha; produção industrial e utilização da capacidade dos EUA
17 de outubro Ata do FOMC
18 de outubro Reunião do Conselho Europeu (possível atualização sobre o Brexit)
19 de outubro PIB do 3º trimestre, produção industrial, vendas no varejo e investimento em ativos fixos da China; índice de preços ao consumidor (CPI) do Japão

A temporada de relatórios de ganhos do terceiro trimestre chegou, com 75% das empresas do S&P 500, 59% do STOXX 600 e 50% do TOPIX devendo registrar seus resultados nas próximas três semanas. Em geral, os analistas não diminuíram suas expectativas de ganhos, mesmo depois de algumas empresas globais terem divulgado avisos de lucro na semana passada mencionando custos mais altos com insumos, aumento de salários, tensões comerciais e/ou demanda chinesa mais atenuada. O mercado de consumo mais forte e o mercado de trabalho mais acirrado nos EUA ainda oferecem um cenário favorável de resultados. Os relatórios de ganhos e o guidance das empresas devem esclarecer como as tarifas podem afetar o sentimento dos negócios e o crescimento global. Os dados do PIB da China também estarão em foco: os economistas esperam que o crescimento da China se atenue gradualmente, mas qualquer surpresa de queda pode afetar ainda mais o sentimento quando entrarmos na temporada de divulgação de resultados.

  • O desinvestimento de ações em outubro continuou. O VIX atingiu 28,8, seu nível mais alto desde fevereiro de 2018. O S&P 500 registrou sua maior queda diária em oito meses na quarta-feira, com o setor de tecnologia conduzindo as quedas. Os rendimentos dos títulos do Tesouro com vencimento em dez anos alcançaram o nível mais alto em sete anos antes de voltar a cair. Os preços do petróleo Brent caíram.
  • O índice subjacente de preços ao consumidor (exceto alimentos e energia) dos EUA cresceu um pouco menos do que o esperado em setembro. A inflação sobre a habitação (maior componente do CPI subjacente) começou a fraquejar e necessita de atenção especial.
  • Os avisos de divulgação de lucro de algumas empresas globais mencionando preocupação com a demanda chinesa geram incertezas quanto à temporada de divulgação dos resultados do terceiro trimestre. As negociações comerciais entre representantes dos EUA e da China não tiveram progresso em Pequim. O banco central da China anunciou seu quarto corte de juros deste ano, e o yuan enfraqueceu-se em relação ao dólar.

Resumo internacional

Desempenho semanal e de 12 meses de ativos selecionados

 

AçõesSemanaYTD12 mesesDiv. Rendimento
EUA – grandes empresas -4.1% 3.5% 8.5% 2.0%
EUA – pequenas empresas -5.2% 1.7% 4.1% 1.3%
Mundo, exceto EUA -3.5% -9.1% -6.1% 3.4%
Desenvolvidos, exceto EUA -3.9% -7.5% -4.7% 3.6%
Japão -3.7% -3.5% 2.8% 2.3%
Emergente -2.0% -13.6% -10.5% 3.1%
Ásia, exceto Japão -3.0% -13.8% -10.2% 2.9%
TítulosSemanaYTD12 mesesRendimento
Títulos do Tesouro EUA 0.5% -2.0% -2.0% 3.2%
TIPS EUA 0.2% -1.6% -0.8% 3.2%
Grau de investimento EUA 0.4% -3.0% -2.2% 4.2%
Alto rendimento EUA -0.5% 1.7% 1.9% 6.6%
Precatórios EUA -0.2% -1.2% -0.7% 3.0%
Desenvolvidos, exceto EUA 0.7% -3.4% -1.9% 1.1%
Títulos em dólar de mercados emergentes -0.1% -4.4% -3.6% 6.7%
CommoditiesSemanaYTD12 mesesNível
Petróleo bruto Brent -4.4% 20.3% 43.0% $80.43
Ouro 1.1% -6.6% -5.9% $1,217
Cobre 2.1% -13.0% -8.5% $6,302
MoedasSemanaYTD12 mesesNível
Euro/dólar 0.3% -3.7% -2.3% 1.16
Dólar/iene -1.3% -0.4% -0.1% 112.21
Libra/dólar 0.3% -2.7% -0.8% 1.32

Fonte: Bloomberg. Em 12 de outubro de 2018.
Observações: dados semanais até sexta-feira. O desempenho de ações e títulos é medido em retornos de índices totais em dólares americanos. Empresas de grande capitalização dos EUA são representadas pelo S&P 500 Index; empresas de pequena capitalização dos EUA são representadas pelo Russell 2000 Index; ações internacionais excluindo-se os EUA, pelo MSCI ACWI ex U.S.; ações de mercados desenvolvidos excluindo-se os EUA, pelo MSCI EAFE Index; Japão, mercados emergentes e Ásia excluindo Japão, pelos seus respectivos índices MSCI; títulos do tesouro dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Treasury Index; U.S. TIPS pelo U.S. Treasury Inflation Notes Total Return Index; grau de investimento dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Corporate Index; alto rendimento dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Corporate High Yield 2% Issuer Capped Index; títulos municipais dos EUA pelo Bloomberg Barclays Municipal Bond Index; títulos de mercados desenvolvidos excluindo-se os EUA pelo Bloomberg Barclays Global Aggregate ex USD; e títulos em dólares americanos de mercados emergentes pelo JP Morgan EMBI Global Diversified Index. Os preços do petróleo Brent estão em dólares americanos por barril, os preços do ouro estão em dólares por onça troy, e os preços do cobre estão em dólares por tonelada. O nível EUR/USD é representado em dólar americano por euro, o USD/JPY em iene por dólar americano, e o GBP/USD em dólar americano por libra. O desempenho do índice é indicado apenas para fins ilustrativos. Não é possível investir diretamente em um índice. O desempenho passado não é indicação de resultados futuros.

Visões de classes de ativos

Visões a partir da perspectiva do dólar americano ao longo de um horizonte de
três meses

 

Classe de ativo Visão Comentários
Ações EUA icon-up Nossa visão positiva está alicerçada em forte momentum dos ganhos, redução da carga tributária sobre as empresas e estímulo fiscal. Preferimos o fator momentum e vemos um papel para exposições de qualidade em meio a um crescimento global estável, mesmo com o cenário de crescente incerteza. O setor de tecnologia encabeça a nossa lista de setores favoritos.
Europa icon-down O crescimento relativamente atenuado dos ganhos, o fraco momentum econômico e os riscos políticos são desafios. Um viés de valor torna a Europa menos atrativa sem um catalisador claro de desempenho superior de valor. Preferimos nomes de qualidade superior, focados no mercado global.
Japão A orientação de valor do mercado é uma ameaça sem um catalisador de crescimento claro. A valorização do iene é outro risco. Os aspectos positivos incluem um comportamento corporativo favorável ao acionista, ganhos corporativos robustos e apoio à compra de ações do Banco do Japão.
Mercados emergentes icon-up Avaliações atrativas, juntamente com um cenário de reformas econômicas e crescimento sólido dos ganhos, favorecem ações de mercados emergentes. Vemos um baixo risco de contágio financeiro. As incertezas com o comércio devem persistir, mesmo após boa parte delas já ter se refletido nos preços. Vemos as melhores oportunidades nos mercados emergentes da Ásia por conta de fundamentos fortes.
Ásia, exceto Japão icon-up O cenário econômico e de ganhos é encorajador, com resiliência em curto prazo na China, apesar do crescimento lento do crédito. Vemos positivamente alguns mercados específicos do sudeste asiático, mas reconhecemos que uma desaceleração chinesa pior do que o esperado ou problemas no comércio global podem representar riscos para toda a região.
Renda fixa Obrigações do governodos EUA icon-down Vemos as taxas crescendo moderadamente em meio à expansão econômica e ao processo de normalização do Fed. Vencimentos mais longos estão vulneráveis à inclinação da curva de rendimento, mas devem oferecer proteção ao portfólio diante de receios em relação ao crescimento. Preferimos dívida de curta duração e vinculada à inflação como proteção contra taxas e inflação crescentes. Preferimos as hipotecas de 15 anos às de 30 anos e a títulos corporativos de curto prazo.
Precatórios EUA Uma demanda sólida dos investidores do varejo e uma oferta atenuada são pontos a favor, mas taxas em crescimento pesam sobre o desempenho absoluto. Preferimos uma postura de duração neutra e um viés de alta qualidade em curto prazo. Recomendamos o foco em vencimentos de dois e 20 anos.
Títulos de crédito dos EUA O crescimento estável sustenta o crédito, mas altas avaliações representam um limite. Preferimos crédito com grau de investimento como proteção contra o risco das ações. Acreditamos que instrumentos de taxa flutuante de qualidade superior e vencimentos mais curtos estão bem posicionados para juros mais altos.
Títulos soberanos europeus icon-down A política de taxa de juros negativa do BCE tornou os rendimentos pouco atraentes e vulneráveis à melhora das perspectivas de crescimento. Acreditamos que haverá um aumento dos rendimentos de base da zona do euro. As avaliações nos países periféricas parecem estar no limite. A exceção é a Itália, onde os spreads refletem riscos políticos em ebulição. A aproximação do fim das compras de ativos líquidos por parte do BCE pode reduzir o apetite por essa classe de ativo.
Crédito europeu icon-down O aumento das emissões e os riscos políticos ampliaram os spreads e geraram certo valor. As taxas negativas prejudicaram os rendimentos, mas diferenciais de taxas crescentes tornam posições com hedge cambial atrativas para quem investe em dólar americano. Mantemos a cautela com relação à dívida financeira subordinada, mesmo com avaliações mais baratas.
Dívidas de mercados emergentes Preferimos títulos de dívida em moeda forte a moeda local e títulos corporativos de mercados desenvolvidos. Uma oferta fraca e fundamentos amplamente fortes em mercados emergentes se somam ao apelo relativo dos títulos de dívida de mercados emergentes em moeda forte. As disputas comerciais e as condições financeiras mais restritas pedem uma abordagem mais seletiva.
Renda fixa da Ásia Fundamentos estáveis, avaliações mais baratas e a desaceleração das emissões criam um cenário favorável. A representação da China no universo de títulos regional está crescendo. Um crescimento com mais qualidade e o foco na reforma do setor financeiro são aspectos positivos de longo prazo, mas uma desaceleração acentuada no crescimento da China seria um desafio.
Outra opção Commodities e moedas * Estoques saudáveis sustentam os preços do petróleo. As tensões comerciais aumentam o risco de queda dos preços de metais industriais. Vemos o dólar americano com neutralidade. O aumento da incerteza global e o crescimento da diferença dos rendimentos dos EUA em relação a outras economias são elementos favoráveis, mas uma avaliação elevada pode restringir ganhos futuros.

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* Dada a amplitude desta categoria, nós não oferecemos uma visão consolidada.

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