COMENTÁRIO GLOBAL SEMANAL

Uma leitura diferente da curva de rendimento dos EUA

06 ago 2018

Pontos principais

  • O recente ganho de inclinação da curva de rendimentos dos EUA oferece um lembrete de que fatores globais – como, por exemplo, a política monetária do Banco do Japão – ajudam a moldar a curva.
  • As ações globais encerraram a semana passada sem nenhuma variação em meio a crescentes conflitos comerciais. Os rendimentos de dez anos dos EUA ultrapassaram os 3% antes de recuarem.
  • Os relatórios de inflação dos EUA desta semana provavelmente farão com que o Federal Reserve aumente os juros mais duas vezes neste ano.

O recente ganho de inclinação da curva de rendimento dos EUA – após um período de persistente perda de inclinação – nos lembra que a diferença entre os rendimentos do Tesouro de dois e de dez anos impactam muito mais do que o estado da economia do país. As taxas de juros globais e a política monetária também desempenham um papel para moldar a curva, com um ajuste recente da política do Banco do Japão (BoJ) ajudando a impulsionar o leve ganho de inclinação.

Curvas de rendimento de obrigações do governo, 2016-2018

O Banco do Japão anunciou que permitirá que títulos de dez anos se movimentem em um alcance mais amplo. Por que isso afetaria a curva de rendimento dos EUA? Os investidores globais muitas vezes buscam os rendimentos mais altos em longo prazo. Os EUA foram o destino mais atraente entre os mercados desenvolvidos por algum tempo devido ao seu maior progresso em direção à recuperação econômica e à normalização dos juros. Isso estimulou influxos para os mercados de dívida pública dos EUA, os quais ajudaram a conter o aumento dos rendimentos do Tesouro no longo prazo, enquanto os aumentos de juros do Fed fizeram subir a extremidade mais curta da curva. O resultado: uma lacuna se fechando entre os rendimentos de dois e dez anos, como mostra a linha laranja no gráfico. A curva alemã, por outro lado, se manteve relativamente acentuada (linha verde). Agora, como é evidente na extremidade direita do gráfico, estamos vendo a curva de rendimento dos EUA ganhar um pouco de inclinação em meio à especulação de que os rendimentos crescentes no Japão podem atrair investidores japoneses de volta para casa e fazê-los vender alguns dos seus investimentos em dívidas de longo prazo dos EUA.

Forte crescimento, mas incerteza crescente

O aumento dos rendimentos do Tesouro em longo prazo deve ajudar a aliviar a preocupação do mercado de uma inversão da curva de rendimento dos EUA – um sinal que muitas vezes gera medo de uma recessão. A persistente perda de inclinação da curva foi influenciada por aumentos das taxas de juros de curto prazo em meio à crescente confiança do mercado de que o Fed vai continuar com a normalização da política de juros. Os mercados estão definindo preços de acordo com a alta probabilidade de o Fed elevar as taxas em mais 0,25 ponto percentual na reunião de setembro, e vemos um aumento adicional em 2018 provavelmente vindo em seguida. Essa confiança foi alimentada pelo forte momentum econômico dos EUA. Nosso GPS de Crescimento BlackRock sinaliza um crescimento dos EUA bem acima da tendência ao longo do próximo ano e indica que as expectativas de consenso sobre as perspectivas de crescimento dos EUA ainda podem estar cautelosas demais. O insaciável apetite global por rendimentos e ativos percebidos como "seguros", juntamente com a alta redução de custos global, vai continuar ajudando a segurar a extremidade longa da curva dos EUA, na nossa opinião.

Vemos um forte crescimento dos EUA transbordando na economia global. Nosso GPS aponta um crescimento global estável e sustentado ao longo dos próximos 12 meses – mesmo que as incertezas econômicas subam devido aos riscos de superaquecimento nos EUA e do agravamento dos seus conflitos comerciais. Importantes bancos centrais fora dos EUA se preparam para progredir rumo à normalização, porém de maneira muito mais lenta que o Fed. Vemos investidores globais em busca de rendimentos mais elevados com hedging cambial nessas regiões, potencialmente reduzindo a demanda para os títulos do Tesouro dos EUA. Fatores de abastecimento também estão impulsionando as taxas de longo prazo dos EUA. Um recente relatório de consultoria do Departamento do Tesouro dos EUA sugere concentrar as emissões em vencimentos mais longos, enquanto o Tesouro busca financiar o déficit fiscal dos EUA.

Conclusão: A curva de rendimento dos EUA fornece menos informações sobre o risco de recessão do que anteriormente e é influenciada por muitos fatores. Prevemos crescimento contínuo, mas a crescente incerteza macro ressalta o papel da renda fixa como um lastro em portfólios. Preferimos papéis de dívidas de curto prazo neste ambiente de juros crescentes e favorecemos uma postura qualitativa no crédito como uma compensação à exposição a ações.   

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Data:Evento
6 de agosto Encomendas de fábrica na Alemanha; Índice Sentix de Confiança de Investidores na Zona do Euro
7 de agosto Balança comercial da Alemanha; reservas cambiais da China
8 de agosto Balança comercial da China
9 de agosto Tratativas comerciais entre EUA e Japão; índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) da China; PPI dos EUA
10 de agosto CPI dos EUA, PIB do segundo trimestre do Japão; PIB do segundo trimestre do Reino Unido; produção industrial; relatório da Agência Internacional de Energia sobre o mercado do petróleo

Dados sobre a inflação dos EUA nesta semana devem fazer com que o Fed aumente a taxa de juros mais duas vezes neste ano. A inflação subjacente dos EUA tem crescido desde novembro de 2017, e os economistas enxergam a continuação dessa tendência. Eles esperam que a inflação aparente e a subjacente ao consumidor aumentem em comparação ao mês anterior. Isso está em conformidade com o nosso GPS de Inflação BlackRock, que sugere que a inflação subjacente dos EUA deve se manter ligeiramente acima da meta do Fed em curto prazo. O aumento anual de 2,7% no ganho médio por hora de acordo com o relatório de postos de trabalho dos EUA em julho também está alinhado com este quadro de inflação. Por sua vez, o PPI da China pode permanecer constante após uma marca forte no mês passado, servindo de base para nossa visão de estabilização do crescimento chinês.

  • O Banco do Japão expandiu a faixa permitida para rendimentos de títulos de dívida pública de dez anos e fez outros ajustes menores. O Fed manteve as taxas de juros estagnadas e expressou confiança nas perspectivas econômicas dos EUA. O Banco da Inglaterra aumentou os juros pela segunda vez desde 2007. Os rendimentos do Tesouro dos EUA de dez anos cruzaram 3% pela primeira vez desde meados de junho antes de recuarem, enquanto rendimentos japoneses de dez anos fecharam acima de 0,1% pela primeira vez em mais de um ano.
  • O mercado de ações não teve variação. Os ganhos foram grandes, mas os conflitos comerciais se agravaram. O presidente dos EUA, Donald Trump, disse ao seu chefe de comércio para aumentar de 10% para 25% a tarifa sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses. A China propôs uma retaliação.
  • O crescimento do nível de emprego nos EUA em julho foi sólido, mas ficou um pouco baixo do esperado. O Índice de Custo do Emprego dos EUA aumentou para o patamar mais alto desde 2008. Os PMIs da Europa e da Ásia apontam uma desaceleração moderada da atividade econômica nessas regiões.

Resumo internacional

Desempenho semanal e de 12 meses de ativos selecionados

 

AçõesSemanaYTD12 mesesDiv. Rendimento
EUA – grandes empresas 0.8% 6.2% 14.9% 1.9%
EUA – pequenas empresas 0.6% 9.7% 20.6% 1.2%
Mundo, exceto EUA -1.4% -2.6% 4.1% 3.2%
Desenvolvidos, exceto EUA -1.4% -1.5% 4.1% 3.4%
Japão -1.8% -1.4% 7.6% 2.3%
Emergente -1.7% -5.8% 3.2% 2.9%
Ásia, exceto Japão -2.4% -5.8% 3.4% 2.7%
TítulosSemanaYTD12 mesesRendimento
Títulos do Tesouro EUA 0.1% -1.4% -1.6% 2.9%
TIPS EUA 0.1% -0.5% 0.9% 3.0%
Grau de investimento EUA 0.2% -2.3% -1.1% 4.0%
Alto rendimento EUA 0.3% 1.4% 2.7% 6.3%
Precatórios EUA -0.1% -0.1% 0.7% 2.7%
Desenvolvidos, exceto EUA -0.6% -2.2% -1.6% 1.0%
Títulos em dólar de mercados emergentes -0.5% -3.1% -0.8% 6.3%
CommoditiesSemanaYTD12 mesesNível
Petróleo bruto Brent -1.5% 9.5% 40.8% $73.21
Ouro -0.8% -6.7% -4.2% $1,215
Cobre -1.4% -14.4% -2.3% $6,206
MoedasSemanaYTD12 mesesNível
Euro/dólar -0.8% -3.6% -2.5% 1.16
Dólar/iene 0.2% -1.3% 1.1% 111.25
Libra/dólar -0.8% -3.8% -1.0% 1.30

Fonte: Bloomberg. Em 3 de agosto de 2018.
Observações: dados semanais até sexta-feira. O desempenho de ações e títulos é medido em retornos de índices totais em dólares americanos. Empresas de grande capitalização dos EUA são representadas pelo S&P 500 Index; empresas de pequena capitalização dos EUA são representadas pelo Russell 2000 Index; ações internacionais excluindo-se os EUA, pelo MSCI ACWI ex U.S.; ações de mercados desenvolvidos excluindo-se os EUA, pelo MSCI EAFE Index; Japão, mercados emergentes e Ásia excluindo Japão, pelos seus respectivos índices MSCI; títulos do tesouro dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Treasury Index; U.S. TIPS pelo U.S. Treasury Inflation Notes Total Return Index; grau de investimento dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Corporate Index; alto rendimento dos EUA pelo Bloomberg Barclays U.S. Corporate High Yield 2% Issuer Capped Index; títulos municipais dos EUA pelo Bloomberg Barclays Municipal Bond Index; títulos de mercados desenvolvidos excluindo-se os EUA pelo Bloomberg Barclays Global Aggregate ex USD; e títulos em dólares americanos de mercados emergentes pelo JP Morgan EMBI Global Diversified Index. Os preços do petróleo Brent estão em dólares americanos por barril, os preços do ouro estão em dólares por onça troy, e os preços do cobre estão em dólares por tonelada. O nível EUR/USD é representado em dólar americano por euro, o USD/JPY em iene por dólar americano, e o GBP/USD em dólar americano por libra. O desempenho do índice é indicado apenas para fins ilustrativos. Não é possível investir diretamente em um índice. O desempenho passado não é indicação de resultados futuros.

Visões de classes de ativos

Visões a partir da perspectiva do dólar americano ao longo de um horizonte de
três meses

 

Classe de ativo Visão Comentários
Ações EUA icon-up Nossa visão positiva está alicerçada em um momentum incomparável de ganhos, redução da carga tributária sobre as empresas e estímulo fiscal. Preferimos momentum. Preferimos qualidade a valor diante do crescimento global estável, mas estamos atentos à crescente incerteza. Nossos setores favoritos são o de finanças e de tecnologia.
Europa icon-down O crescimento relativamente atenuado dos ganhos, o fraco momentum econômico e os riscos políticos acentuados são desafios. O domínio de setores de valor no mercado também torna a região menos atrativa na ausência de uma expansão no crescimento.
Japão A orientação de valor do mercado é uma ameaça sem um catalisador de crescimento claro. A valorização do iene é outro risco. Os aspectos positivos incluem um comportamento corporativo favorável ao acionista, ganhos corporativos robustos e apoio à compra de ações do Banco do Japão.
Mercados emergentes icon-up Reformas econômicas, fundamentos corporativos em processo de melhora e avaliações razoáveis dão apoio a ações de mercados emergentes. A expansão dos mercados desenvolvidos acima da tendência é outro ponto positivo. Riscos como a valorização do dólar americano, a escalada das tensões comerciais e as eleições falam a favor da seletividade. Vemos as maiores oportunidades nos mercados emergentes da Ásia.
Ásia, exceto Japão icon-up O cenário econômico é encorajador, com resiliência em curto prazo na China e ganhos corporativos robustos. Vemos positivamente alguns mercados específicos do sudeste asiático, mas reconhecemos que uma desaceleração chinesa pior do que o esperado ou problemas no comércio global podem representar riscos para toda a região.
Renda fixa Obrigações do governodos EUA icon-down Vemos as taxas crescendo moderadamente em meio à expansão econômica e ao processo de normalização do Fed. Vencimentos mais longos estão vulneráveis à inclinação da curva de rendimento, mas devem oferecer proteção ao portfólio diante de receios em relação ao crescimento. Preferimos dívida de curta duração e vinculada à inflação como proteção contra taxas e inflação crescentes. Preferimos as hipotecas de 15 anos às de 30 anos e a títulos corporativos de curto prazo.
Precatórios EUA Uma demanda sólida dos investidores do varejo e uma oferta atenuada são pontos a favor, mas taxas em crescimento pesam sobre o desempenho absoluto. Preferimos uma postura de duração neutra e um viés de alta qualidade em curto prazo. Recomendamos o foco em vencimentos de dois e 20 anos.
Títulos de crédito dos EUA O crescimento estável sustenta o crédito, mas altas avaliações representam um limite. Preferimos crédito com grau de investimento como proteção contra o risco das ações. Instrumentos de taxa flutuante de qualidade superior e vencimentos mais curtos estão bem posicionados para juros mais altos.
Títulos soberanos europeus icon-down A política de taxa de juros negativa do BCE tornou os rendimentos pouco atraentes e vulneráveis à melhora das perspectivas de crescimento. Acreditamos que haverá um aumento dos rendimentos de base da zona do euro. Mantemos a cautela com relação a áreas periféricas por causa de avaliações apertadas, dos riscos políticos na Itália e da perspectiva de o BCE reduzir suas compras de ativos.
Crédito europeu icon-down O aumento das emissões e os riscos políticos ampliaram os spreads e geraram certo valor. As taxas negativas prejudicaram os rendimentos, mas diferenciais de taxas crescentes tornam posições com hedge cambial atrativas para quem investe em dólar americano. Mantemos a cautela com relação à dívida financeira subordinada, mesmo com avaliações mais baratas.
Dívidas de mercados emergentes Avaliações de dívidas em moeda forte elevaram a atratividade de títulos em moeda local e papéis corporativos de mercados desenvolvidos. As avaliações também contam com o suporte da desaceleração da oferta e de fundamentos fortes nos mercados emergentes. As disputas comerciais e as condições financeiras mais restritas são riscos de queda.
Renda fixa da Ásia Fundamentos estáveis, avaliações mais baratas e a desaceleração das emissões criam um cenário favorável. A representação da China no universo de títulos regional está crescendo. Um crescimento com mais qualidade e o foco na reforma do setor financeiro são aspectos positivos de longo prazo, mas uma desaceleração acentuada no crescimento da China seria um desafio.
Outra opção Commodities e moedas * A queda das reservas globais serve de base para o preço do petróleo, e as tensões geopolíticas também causam impacto. Vemos o dólar americano com neutralidade. O aumento da incerteza global e o crescimento da diferença dos rendimentos dos EUA em relação a outras economias são elementos favoráveis, mas uma avaliação elevada pode restringir ganhos futuros.

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* Dada a amplitude desta categoria, nós não oferecemos uma visão consolidada.

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