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A geopolítica vai doer novamente em 2019?

Isabelle Mateos y Lago |01 fev 2019

A geopolítica ensombrou os mercados em 2018. Isabelle partilha o nosso ponto de vista da geopolítica em 2019.

2018 lembra-nos que a geopolítica é relevante. A nossa análise sugere que a incerteza crescente em torno do agravamento de tensões comerciais constituiu este ano um grande entrave para as ações, neutralizando um sólido crescimento dos lucros, com as duras conversações sobre o comércio dos EUA a converterem-se em ações comerciais. Vemos novamente a geopolítica preparada a ensombrar os mercados em 2019.

O nosso painel de riscos geopolíticos da BlackRock, onde analisamos a probabilidade e o impacto no mercado dos nossos 10 principais riscos geopolíticos, mostra um risco geopolítico marginalmente mais elevado desde setembro, ao passo que a concertação do mercado sobre o risco geopolítico desceu em relação aos níveis elevados anteriores. A nossa análise sugere que os riscos geopolíticos em geral representam um risco substancial para os mercados no próximo ano: Verificamos que quanto menor a atenção dada pelo mercado aos riscos geopolíticos, como se evidencia pelos nossos indicadores de risco geopolítico da BlackRock (BGRI), maior será o potencial impacto no mercado. O gráfico abaixo mostra o declínio da atenção dada pelo mercado em geral, através do nosso BGRI Global.

Gráfico Índice global de BlackRock Investment Institute.

Impacto dos choques geopolíticos nos mercados globais

O efeito dos choques geopolíticos nos mercados globais é, muitas vezes, de curta duração, de acordo com a nossa análise dos impactos nos preços dos ativos de 50 situações de risco desde 1962, mas o impacto global fez-se sentir mais fortemente e com maior duração quando a conjuntura económica foi desfavorável. Com o abrandamento do crescimento global em 2019, os mercados tornaram-se mais sensíveis aos riscos geopolíticos.

Vemos o comércio a permanecer no centro da política externa norte-americana em 2019, com fricções comerciais ainda a pairar sobre os mercados. As fricções comerciais parecem estar agora mais incorporadas em preços de ativos do que há um ano, mas prevemos que as voltas e reviravoltas na frente comercial venham a provocar crises de ansiedade no mercado. Verificámos que a atenção dada pelo mercado a dois dos nossos principais 10 riscos-as tensões no comércio global e as relações EUA-China-baixou recentemente, embora tenhamos mantido a probabilidade desses riscos num nível elevado. Possível continuação do impacto no mercado destas fricções comerciais.

Possível fragmentação europeia

No entanto, à medida que nos aproximamos de 2019, vemos outros motivos de preocupação para além do comércio. A Europa, por exemplo, preocupa-nos. Aumentámos a probabilidade do nosso risco de fragmentação da União Europeia. Não prevemos uma desintegração imediata da região, mas estamos preocupados com uma confluência de ameaças a médio prazo à unidade europeia num contexto de abrandamento do crescimento. Vemos o governo populista italiano rumo a um confronto prolongado com a União Europeia (UE) no âmbito da política fiscal, apesar de termos assistido a um tom mais positivo nas conversações mais recentes entre a Itália e a UE. As recentes eleições regionais em Espanha e os motins em França mostram a força do sentimento populista. Acreditamos que o Reino Unido e a UE acabarão por chegar a um acordo para o Brexit, mas o caminho a percorrer é incerto. Todavia, a atenção dada pelo mercado a este risco disparou recentemente para o topo do nosso ranking, implicando um menor impacto no mercado mesmo que continuemos preocupados com o risco a longo prazo.

Também atualizámos a probabilidade de dois outros riscos que seguimos: As tensões no Golfo e os conflitos entre a Rússia e a NATO. No Golfo, prevemos sanções adicionais do Ocidente face à Arábia Saudita, e a atenção dada pelo mercado a este risco diminuiu um pouco recentemente. Na Eurásia, os navios russos que dispararam sobre embarcações ucranianas marcaram uma escalada significativa nas hostilidades entre a Rússia e a NATO. Este risco permanece ausente da mira do mercado.

Risco de ataques cibernéticos

Verificámos que são os riscos que não são objeto de máxima atenção dos investidores que tendem a ter um forte impacto no mercado. O risco de Ataque(s) cibernético(s) de relevo é outro risco que recai nessa categoria. Veja o nosso BGRI para este risco abaixo.

Gráfico Ataques cibernéticos de relevo de BlackRock Investment Institute.

Prevemos que o volume e a sofisticação dos ataques cibernéticos continuem a aumentar à medida que o mundo se torna cada vez mais digitalizado. Os mercados financeiros são suscetíveis de prestar uma maior atenção a este risco à medida que cresce a ameaça a infraestruturas e empresas cruciais. A nível geopolítico, assistimos aos riscos de a guerra eletrónica exacerbar as tensões existentes, ao mesmo tempo que proporciona uma oportunidade para uma maior cooperação entre as nações.

Isabelle Mateos y Lago
Chief Multi-Asset Strategist da BlackRock