BlackRock Retirement Institute

Reforma numa economia automatizada

31 jul 2017
por BlackRock

Durante o século XXI, é provável que desenvolvamos a capacidade de automatizar essencialmente todas as competências humanas. Esta nova capacidade tecnológica irá alterar profundamente a estrutura da nossa economia e da nossa sociedade, pondo fim à necessidade de trabalhar. Sem praticamente nenhuma intervenção humana, os computadores e os robôs conseguirão produzir qualquer bem ou serviço que seja possível produzir. Quando isto acontecer, dois desafios que são fulcrais ao nível da reforma hoje em dia – proporcionar rendimento e atividades que confiram sentido à vida sem trabalhos pagos – irão tornar-se desafios fundamentais para toda a sociedade. Hoje em dia, a reforma é o nosso laboratório para conceber a sociedade pós-trabalho do futuro.

Ainda não sabemos quando é que os computadores e os robôs serão capazes de reproduzir todas as competências humanas. Ainda pode faltar muito tempo (embora um inquérito realizado junto de cientistas informáticos sugira que 2050-2075 será o período mais provável 1). No entanto, os grandes efeitos começarão muito antes de conseguirmos automatizar todas as competências humanas. Isto deve-se ao facto de as competências humanas mais difíceis não serem difíceis apenas para os computadores – frequentemente, também são difíceis para muitas pessoas. A maioria das pessoas tem competências de nível médio e tem empregos que requerem competências de nível médio (Figura 1). Isto é particularmente verdade no caso dos adultos de idade mais avançada. Embora as nossas sociedade façam grandes investimentos na educação e na formação, não conseguimos desenvolver competências de alto nível em toda a força de trabalho adulta. Em resultado disso, a grande transformação não terá de esperar até conseguirmos automatizar todas as competências humanas – ao invés disso, terá início quando conseguirmos automatizar as competências de nível médio.

Figura 1: Taxas de alfabetização por faixa etária nos países da OCDE

Taxas de alfabetização por faixa etária nos países da OCDE

Fonte: OECD Skills Outlook 2013: First Results from the Survey of Adult Skills (PIAAC), Tabela A3.3 (L) (online) (Perspetivas da OCDE sobre as competências de 2013: primeiros resultados do inquérito sobre as competências dos adultos [PIAAC])

A transformação no sentido da automatização vai alterar o debate sobre a reforma. Quando começarmos a substituir muitos trabalhadores em funções que usam competências de nível médio, começaremos a ter grandes desafios com trabalhadores desempregados em toda a população. Neste ambiente, tornar-se-á difícil esperar que as pessoas na idade tradicional da reforma continuem a trabalhar como uma das formas de proporcionar rendimento para uma vida mais longa. Em resultado disso, o debate atual sobre o desafio de apoiar um número cada vez maior de reformados irá transformar-se num debate sobre apoiar um número ainda maior de pessoas que não trabalham, de todas as idades. Este debate terá de centrar-se em possíveis soluções relacionadas com a redistribuição do rendimento, porque as soluções relacionadas com o trabalho pago continuado já não serão viáveis.

Durante a transição para a automatização, fará diferença que competências são automatizadas em primeiro lugar. Os trabalhos envolvem frequentemente uma mistura de competências físicas e cognitivas (Figura 2), mas existe uma diferença importante entre as duas: a maioria dos adultos tem competências físicas de nível médio fortes sem precisar de muito treino especial, mas as suas competências cognitivas de nível médio são o resultado de muitos anos de desenvolvimento ao nível da educação formal. Se os computadores e os robôs conseguirem automatizar primeiro as competências físicas de nível médio, continuará a haver uma forte procura palas competências cognitivas de nível médio desenvolvidas durante a educação formal (até essas competências cognitivas também serem automatizadas). No entanto, se ao invés disso primeiro forem automatizadas as competências cognitivas de nível médio, então os trabalhos de muitas pessoas que utilizam atualmente competências cognitivas de nível médio irão mudar, passando a centrar-se primordialmente nas competências físicas, e muitos trabalhadores terão então mais habilitações do que o necessário para os seus trabalhos.

Figura 2: Distribuição atual do emprego nos EUA, por competências cognitivas e físicas

Distribuição atual do emprego nos EUA, por competências cognitivas e físicas

Fonte: Elliott, 2014, Anticipating a Luddite Revival, Issues in Science and Technology (Prevendo um ressurgimento do ludismo, problemas na ciência e na tecnologia)

Precisamos de saber quão perto estão os computadores e os robôs de automatizar as competências de nível médio para compreender quando e como é que esta transformação irá ocorrer. Para fazer isso, podemos adaptar os testes que usamos atualmente para avaliar as competências das pessoas, para que os testes também possam avaliar as competências dos computadores e dos robôs. Se avaliarmos que as competências dos computadores e dos robôs que estão a ser desenvolvidas neste momento pelos investigadores, podemos identificar as capacidades de automatização que serão aplicadas na economia ao longo dos próximos 10 ou 20 anos. Esta avaliação irá indicar quão próximo estamos de automatizar todas as competências de nível médio.

A OCDE está atualmente a realizar um estudo exploratório para medir as capacidades dos computadores, utilizando um teste existente para medir as competências de pessoas adultas. Esta exploração incidirá apenas sobre algumas das competências utilizadas no trabalho. A abordagem pode ser alargada no futuro para analisar o conjunto completo de competências usadas no trabalho.

Stuart W. Elliott

Sobre o autor

Stuart W. Elliott
Direção de Educação e Competências, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)

Stuart W. Elliott, PhD (doutorado), é um analista na Direção de Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Concluiu recentemente o trabalho num relatório temático sobre o teste de resolução de problemas com computadores que faz parte do Inquérito sobre as Competências dos Adultos da OCDE (PIAAC). Está a usar atualmente o PIAAC para analisar a relação entre a tecnologia, as competências e a produtividade, incluindo uma comparação entre as capacidades dos humanos e dos computadores no teste PIAAC.

Antes de integrar os quadros da OCDE, Elliott dirigiu o Conselho de Testes e Avaliação do National Research Council (Conselho Nacional de Pesquisa) nos EUA, liderando vários estudos sobre testes e indicadores educativos, avaliação da ciência e de competências do século XXI, aplicações da tecnologia da informação, e preparação e certificação profissional.