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NOVA ROTA: DESBRAVANDO OS INVESTIMENTOS ESG

Ben Ho, especialista em ESG da BlackRock, e Conrad Albrecht, Head de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da MSCI para a América Latina, comentam os anseios dos investidores em alocar recursos com consciência e propósito e traçam um percurso informativo para entender melhor esse cenário transformador do mercado.

Takeaways

  • Força: Fluxo global em estratégias ESG até setembro de 2020 chegou a US$ 203 bilhões. A Europa é um dos países de maior destaque dentro do tema.
  • Resiliência: Durante os momentos mais críticos da pandemia do coronavírus, os índices ESG demonstraram melhor desempenho1.
  • Propósito: Empresas passam por mudanças estruturais, com foco na economia de stakeholder, como forma se responder às conversas públicas e expectativas quanto ao direcionamento ESG de suas estratégias.

ESG, o futuro dos investimentos

Conrad Albrecht, Head de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da MSCI para a América Latina

Três letras ganham cada vez mais espaço no mercado de investimentos: ESG. As boas práticas ambientais, sociais e de governança têm moldado novos comportamentos de investidores e empresas, gerando uma nova rota no setor.

Mas quem pensa que o ESG é recente, se engana.

Segundo a MSCI, uma das principais potências em termos de ferramentas críticas no suporte a decisões de investimento, a prática do investimento sustentável começou na década de 1960, com os investidores excluindo ações de suas carteiras que estavam ligadas a determinadas atividades de negócios, como produção de tabaco ou envolvimento no regime de apartheid sul-africano.

No entanto, a sigla “ESG” foi cunhada em 2004, na publicação “Who Cares Wins” realizada pelo Pacto Global2, iniciativa das Nações Unidas e do Banco Mundial. Onze anos depois, em 2015, foi firmado o Acordo de Paris, onde 195 países se comprometeram com a redução de gases do efeito estufa3.

Desde então, em linha com os novos acordos e regulamentações, o ESG se tornou uma tendência poderosa que cresce exponencialmente.

O estudo “Investimento Sustentável Global 2020”, da BlackRock, revela que até setembro de 2020, houveram fluxos em novos negócios de mais de US$ 203 bilhões focados em estratégias envolvendo investimentos ESG. Em 2016 esse número era de US$ 30 bilhões4.

A Europa se destaca no assunto, pois para o investidor europeu contar com esse perfil de ativo na carteira já se tornou o novo normal. No entanto, os investidores do continente americano e do asiático ainda estão em um período de descoberta do potencial dos investimentos guiados por propósito.

Impulso ESG

Apesar de muitos países ainda estarem navegando nas águas mais rasas do ESG, sob uma perspectiva global, o tema ganhou impulso e maior relevância em 2020, especialmente por dois motivos:

  1. Risco climático

As mudanças contínuas no clima levaram os investidores, de forma geral, a considerarem estas questões em suas estratégias. Eles reconheceram que o risco climático é um risco de investimento. Para as empresas, o tema também impacta nas perspectivas de longo prazo.

Ao comparar o foco dos investidores em pilares ESG, nota-se que 88% deles, globalmente, classifica o meio ambiente como a prioridade entre as escolhas de investimentos. Um reflexo da urgência que as mudanças climáticas apresentam.

  1. Pandemia da COVID-19

A pandemia da COVID-19 acabou por intensificar e acelerar as mudanças em torno de investimentos ESG, reforçando essa tendência. Somada aos eventos sociais que ecoaram na imprensa global, a pandemia impulsionou a expansão do tema.

Outro ponto: a crise em decorrência da COVID-19 também mostrou a resiliência das estratégias que focam nos pilares ESG, com impacto no desempenho do investimento.

Isso fica evidente na análise de Conrad Albrecht, Head de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da MSCI para a América Latina, que utilizou a janela de queda – entre janeiro e março de 20205 – e de rally – entre março e o final da segunda semana de 2021 – para examinar a performance de diferentes estratégias ESG.

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Durante o pior momento dos mercados na pandemia, os índices ESG da MSCI apresentaram desempenho superior frente aos Índices de capitalização de mercado tradicionais (não orientados às abordagens de investmento ESG), principalmente devido à maior representação e concentração de ações com elevados padrões Ambientais, Sociais e de Governança Corporativa.

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Conrad Albrecht Head de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da MSCI para a América Latina

Alguns fatores interessantes constatados:

  • Embora o índice MSCI ACWI tenha terminado o ano de 2020 com uma performance positiva, as versões de estratégias ESG como o MSCI ACWI SRI apresentaram uma performance muito superior durante os períodos de alta e queda de 20206.
  • As características ESG desempenharam um papel importante na performance, a qual foi superior durante os períodos de queda e de rally, e também ao longo de 20207.
  • A correlação negativa entre ESG e volatilidade, que foi constatada nos estudos, forneceu um efeito "protetor" durante a queda8.

Mercado em movimento

No Brasil, o visível aumento da atenção das empresas brasileiras para as boas práticas ESG e em relação à percepção da importância em adotá-las, permite observar uma mudança estrutural das companhias, com foco na economia de stakeholders9, a qual busca atender aos interesses dos:

  • Consumidores
  • Colaboradores
  • Fornecedores
  • E das comunidades em geral
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Acreditamos que as boas práticas de ESG são importantes indicadores, que mostram a capacidade de uma empresa de se adaptar a novas circunstâncias e às interrupções do mercado.

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Ben Ho Especialista em ESG da BlackRock

Já quanto às possibilidades dentro desse setor, Albrecht acredita que ainda existe muito espaço para crescimento na participação de fundos de investimentos direcionados pelo ESG no mercado brasileiro. De acordo com Conrad Albrecht, “entretanto, ainda não temos uma oferta muito ampla de fundos de investimentos, ou ETFs, que sigam uma política orientada ao ESG10, ou veículos de investimento estruturalmente ESG. Porém, vale ressaltar que a demanda por parte dos investidores individuais está aumentando11.”

Por fim, há outros fatores movimentando o mercado dentro da temática sustentável, os quais impactarão a rota do mercado de investimentos nos próximos anos. São eles:

  • Investimentos ESG estão cada vez mais presentes nas conversas públicas.
  • Emissores corporativos passaram a ter mais interesse em saber sobre o que se espera quanto ao que divulgam, quais são as políticas desejáveis e quais métricas e exposições são necessárias.
  • Bancos brasileiros e o mercado de débitos também estão mais expostos às emissões ESG.
  • A indústria de investimentos tem sido pressionada para acelerar seu comprometimento com investimentos sustentáveis.