Sustentabilidade e Investimentos: o Novo Normal

BlackRock |03 mar 2020

Entrevista com Carlos Takahashi

Até bem pouco tempo atrás, os mercados eram lentos em refletir os efeitos dos riscos climáticos, mas a consciência mundial sobre o assunto está mudando muito rapidamente. Para o presidente global da BlackRock, Larry Fink, "estamos à beira de uma mudança estrutural nas finanças". A carta anual do executivo aos presidentes de empresas reflete essa preocupação e as atitudes que serão tomadas para se adequar a essa nova realidade.

A adoção de critérios ESG – ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês – tem sido cada vez mais considerada por gestores e investidores, que estão reconhecendo as alterações climáticas, por exemplo, como um risco de investimento. Não é à toa que o assunto assumiu uma pauta relevante no Fórum Econômico Mundial em Davos.

No Brasil, essas mudanças também serão refletidas pelo mercado em uma jornada que, apesar de longa e desafiadora, reconhecerá que o caminho é o da sustentabilidade, conforme conta o Presidente da BlackRock Brasil, Carlos Takahashi.

Pergunta: Quais os principais desafios quando se fala em perspectivas financeiras globais, conforme discutido no Fórum Econômico Mundial em Davos?

Carlos Takahashi: A sustentabilidade assumiu uma pauta extremamente relevante em Davos. Estamos falando de mudanças climáticas, desastres ambientais e naturais, além da perda da biodiversidade em todo o mundo. Questões políticas e econômicas, de forma geral, estão relacionadas ao assunto, que é muito relevante no quesito de geração de valor e também de crescimento econômico.

Pergunta: Como o mercado financeiro global está evoluindo para se adaptar aos desafios impostos pelas questões sociais, geopolíticas e ambientais?

Carlos Takahashi: Essa é uma das razões pelas quais Larry Fink tem escrito suas cartas anuais e para que esse documento fosse bastante incisivo este ano, assim como a carta do nosso comitê executivo global enviada a nossos clientes. O mercado financeiro, governos, presidentes de empresas, ou seja, todo o ecossistema, precisam ser mais efetivos no que tange essas questões. Obviamente isso deve ser feito por meio de soluções adequadas para os debates geopolíticos e, especialmente para as questões ambientais.

Pergunta: Qual é a responsabilidade das empresas no setor de investimentos como a BlackRock na construção de um futuro sustentável no Brasil?

Carlos Takahashi: Assim como a BlackRock, os gestores de investimentos no Brasil, além de cumprir seu dever fiduciário junto aos clientes, de entregar a performance esperada, têm forte capacidade para influenciar as empresas investidas. Isso é feito por meio da adoção de processos que as incentivem a adotar as melhores práticas relacionadas aos critérios ambientais, sociais e de governança.

O capitalismo responsável é imbuído de uma visão de sustentabilidade e de longo prazos e somente ele pode impulsionar retornos adequados com riscos ajustados de forma consistente.

Pergunta: Fink falou em sua carta sobre o capitalismo transparente e responsável. Como discutir esses tópicos com investidores?

Carlos Takahashi: O principal ponto de partida para qualquer investimento é sempre com relação à visão de longo prazo. Para que se possa tomar decisões adequadas e conscientes de alocação, o investidor precisa ter acesso a informações claras, precisas e transparentes. O capitalismo responsável é imbuído de uma visão de sustentabilidade e de longo prazos e somente ele pode impulsionar retornos adequados com riscos ajustados de forma consistente.

Pergunta: Como a sustentabilidade moldará a maneira como os brasileiros pensam sobre finanças?

Carlos Takahashi: Da mesma forma que em alguns países essa discussão já tem uma amplitude maior e uma história mais longa, esse tema também vai moldar o comportamento do investidor brasileiro. Obviamente, essa será uma jornada longa e desafiadora e envolve um trabalho educacional intenso, direcionado não só ao investidor, mas a todo o ecossistema de mercado.

Pergunta: Como a BlackRock pretende colocar a sustentabilidade no centro de sua abordagem de investimentos no Brasil, em linha com as iniciativas internacionais abordadas por Fink?

Carlos Takahashi: Os investidores brasileiros já começam a se preocupar mais com as questões de , critérios ESG e mudanças climáticas em sua tomada de decisões relacionadas a investimentos. O Brasil, até por suas condições ambientais, tem um papel muito importante nessa discussão. Essas mudanças têm ecoado entre os investidores mais jovens e há uma maior diversidade de pessoas liderando investimentos no Brasil, como as mulheres. Tudo isso provoca uma ampla discussão também em relação à sustentabilidade. A carta de Larry Fink teve grande repercussão e aqui no Brasil nós faremos com que isso ecoe de forma adequada, reconstruindo ou otimizando a nossa oferta para se adequar a esse novo cenário. Entendemos que cada vez mais o investidor local precisa buscar opções internacionais para seus investimentos e nesse contexto, as soluções do nosso portfólio global estão alinhadas com essa visão de sustentabilidade.

Pergunta: Até que ponto a mudança climática é um fator importante que os consultores financeiros devem considerar ao criar um portfólio para investidores brasileiros?

Carlos Takahashi: A conscientização sobre as mudanças climáticas implica em deixarmos um mundo melhor para as próximas gerações. Uma participação mais relevante de investimentos sustentáveis nos portfólios depende de termos cada vez mais soluções de investimentos e uma discussão consistente sobre o retorno ajustado ao risco. Esse é um processo gradual e educacional e, sem dúvida alguma, de longo prazo. No entanto, provocar uma discussão consistente sobre o retorno ajustado ao risco possibilita ter a perspectiva de uma participação mais relevante de investimentos sustentáveis nos portfólios.

Entendemos que cada vez mais o investidor local precisa buscar opções internacionais para seus investimentos e nesse contexto, as soluções do nosso portfólio global estão alinhadas com essa visão de sustentabilidade.

Pergunta: Como as questões ambientais moldarão a alocação de ativos e estratégias de avaliação de risco para os consultores financeiros?

Carlos Takahashi: Não há dúvidas de que essas questões ocuparão um espaço de extrema relevância e, em algum momento, serão o fator mais importante na decisão de alocação de ativos e também de gestão de risco. Há análises que demonstram que o retorno ajustado ao risco de investimentos sustentáveis apresenta o melhor desempenho, especialmente no longo prazo. Então, cada vez mais isso estará presente na pauta dos financial advisors.

Pergunta: Você acredita que os investidores brasileiros estão preocupados em integrar ESG em sua estratégia de alocação? Quais desafios os consultores financeiros enfrentam para ajudar os clientes a adotar a sustentabilidade no processo de investimento?

Carlos Takahashi: As iniciativas relacionadas aos critérios ESG no Brasil, especialmente relacionados a alocação estratégica, precisam de forte amadurecimento. Esse ainda não é um assunto mandatório, é apenas uma recomendação e está sujeita a adesão ou não do investidor. O caminho que temos pela frente é bastante desafiador para que a questão da sustentabilidade ocupe o lugar de importância que precisa. Atitudes como as da BlackRock têm enorme relevância para o mercado. E já temos outros players do mercado que têm oferecido soluções com essa abordagem. Quanto mais esse tema se tornar prioritário e forem adotadas ações efetivas para incluí-lo em portfólios, mais os clientes irão se engajar e abraçar a sustentabilidade.

Pergunta: Além das mudanças climáticas, quais são os outros grandes desafios que ameaçam a atual estrutura financeira que os financial advisors também devem prestar atenção para garantir que seus clientes sejam bem aconselhados?

Carlos Takahashi: As boas práticas de governança nas companhias, respeito ao voto minoritário e diversidade dos conselhos de administração são alguns deles. Os acontecimentos do mundo contemporâneo são derivados de questões ambientais, sociais e de governança. Esse conjunto tem que ser olhado com muita atenção, porque cada vez mais traz impactos relevantes nas empresas e consequentemente nos investimentos.

Independentemente do momento em que cada país se encontra, a preocupação com a sustentabilidade precisa estar presente. Alguns mercados estão mais avançados, inclusive nas questões regulatórias, mas acredito que, seja de forma induzida ou pelo convencimento, cada país tem que encontrar os meios para que essa agenda se torne relevante.

Carta do Larry aos CEOs

Carta do Larry aos clientes