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O risco da inflação muito baixa

05 jul 2019

A inflação baixa pode parecer atraente, mas, como Russ explica, há desvantagens para os investidores.

De todas as perspectivas, o mercado acionário dos EUA tem tido um ano brilhante. As ações se beneficiaram de condições financeiras mais favoráveis, que por sua vez fizeram subir os múltiplos de mercado. Por uma feliz coincidência, os ganhos em múltiplos de mercado corresponderam exatamente ao ganho de 15% no Índice S&P 500.

Porém, embora as ações tenham se beneficiado do dinheiro barato e dos múltiplos mais altos, elas recentemente têm sido mais pressionadas pelas preocupações com o crescimento. O desafio é que a mesma desaceleração que levou o Federal Reserve a mudar de direção e parar de elevar as taxas também coloquem os lucros em risco. Acontecimentos recentes no mercado de títulos indexados à inflação (por exemplo, os Treasury Inflation Protected Securities, ou TIPS) sugerem que os investidores estão certos em ter um pouco mais de cautela. 

As expectativas de inflação embutidas no mercado de TIPS sinalizam que a inflação (que já está baixa) cairá ainda mais. No final de abril, o breakeven de 10 anos dos TIPS (BE), ou seja, a quantidade de inflação que os investidores de TIPS esperam durante a próxima década, foi de cerca de 1,95%. Hoje, o BE de 10 anos está abaixo de 1,70%. As perspectivas para os próximos cinco anos são ainda mais baixas, cerca de 1,50%. E enquanto as expectativas de inflação estão mais altas usando medidas de mercado diferentes, como os swaps de inflação, a direção ainda está baixa (ver Gráfico 1).

Expectativas de inflação de médio prazo nos EUA e na Zona do Euro

Expectativas de inflação de médio prazo nos EUA e na Zona do Euro

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream, ICAP e BlackRock Investment Institute. 14 de junho de 2019. Observação: Expectativas de inflação de médio prazo com base no swap de inflação a termo de 5A.

Como destaquei em março, as taxas de BE de longo prazo e as ações dos EUA têm estado intimamente correlacionadas no ambiente pós-crise. A razão é que as expectativas de inflação fornecem uma representação aproximada do poder de precificação corporativa e, por extensão, das margens. Nos últimos 20 anos, as margens de lucro tiveram uma média de 6,5% em períodos de expectativas de inflação abaixo da média (menos de 2%). Por outro lado, em períodos de expectativas de inflação acima da média, as margens de lucro tiveram uma média superior a 8%.  

A zona de Goldilocks

As ações se recuperaram este ano, com os investidores retornando a um tema comum pós-crise: a zona de Goldilocks. Em outras palavras, um crescimento lento o suficiente para que o Fed forneça dinheiro barato, mas não tão lento que os lucros caiam ou a economia entre em recessão. Durante a maior parte da década passada, este foi o caso. Embora o crescimento tenha desacelerado em várias ocasiões, nunca nos aproximamos de uma recessão, e os lucros das empresas mantiveram-se notavelmente resilientes.

Hoje, embora haja poucos sinais de uma recessão iminente, uma desaceleração mais acentuada do que o esperado coloca o lucro em risco. Os investidores não devem ignorar os sinais do mercado de títulos, ou mais precisamente o mercado de títulos indexados à inflação. As expectativas de inflação em queda rápida são um sintoma de um conjunto mais amplo de desafios: a desinflação secular de longo prazo (que é boa) combinada com uma desaceleração cíclica (não tão boa).

Para ser claro, na medida em que o crescimento se estabiliza, os temas de alta que suportam as ações continuam em vigor. No entanto, se as expectativas de inflação continuarem a cair, as empresas podem se ver mais desafiadas do que sugerem as estimativas de lucros futuros. Nesse cenário, a inflação em queda pode mudar de um vento a favor das ações para um vento contrário a elas.

Russ Koesterich
Portfolio Manager, Global Allocation
Russ Koesterich, CFA, JD, Managing Director and portfolio manager, is a member of the Global Allocation team within BlackRock's Multi-Asset Strategies Group.   Mr. ...