América Latina: Quais transformações o governo Biden trará?

06 mai 2021

Sempre que há mudanças na Casa Branca nos EUA, surgem perguntas sobre como será a relação do governo com os países da América Latina. Não apenas porque os EUA são um importante parceiro comercial de todos os países da região, mas também por sua projeção na política e na cultura. Outro importante motivo é a crescente população de origem latina nos EUA.

Ao contrário do governo anterior, o presidente Biden tem uma história significativa com a América Latina. Ele visitou a região 16 vezes quando foi vice-presidente no governo Obama. Como emissário principal da América Latina e Caribe, o então vice-presidente Biden comprometeu-se com os líderes dos países da América Central, Guatemala, Honduras e El Salvador, em desenvolver a Estratégia dos EUA para o relacionamento com a região (U.S. Strategy for Engagement in Central America), em resposta ao aumento da imigração procedente desses países. Biden viajou por toda a América Latina, mas seu trabalho na América Central tornou-se indiscutivelmente uma das suas maiores realizações na região.

Essa experiência será decisiva no enfrentamento de uma das maiores consequências do impacto profundo que o Covid teve na região. A combinação de danos econômicos profundos e de dificuldades na área da saúde em controlar o vírus aumentaram significativamente a pressão migratória. Esta, por sua vez, já havia sido intensificada pelo impacto nas mudanças climáticas e maior frequência de furacões e secas severas. Além disso, estima-se que muitos desses efeitos durarão por muitos anos, já que diversos países latino-americanos constantemente enfrentam problemas em suas finanças públicas, falta de oportunidades de emprego e uma crescente incerteza política em futuras eleições.

Mas nem toda relação deve ser totalmente dominada por fatores de preocupação. O foco em uma “revolução verde” como o plano de infraestrutura recentemente anunciado por Biden traz efeitos positivos em setores importantes como a mineração de cobre e lítio (componentes importantes para veículos elétricos) ou o desenvolvimento de fontes de energia sustentáveis como o “hidrogênio verde”. Esse potencial não se limita somente ao que acontece nos Estados Unidos, uma vez que se beneficia de um esforço global para atingir a meta necessária para zerar as emissões de carbono nas próximas décadas.

Com tudo isso, o principal desafio para a América Latina será conseguir chamar a atenção do governo Biden, que está concentrado na fase inicial do seu governo, em superar o estado de emergência causado pela pandemia do COVID e reiniciar a economia. Na política exterior, as relações com a China e a Rússia, bem como a resolução da presença norte-americana no Oriente Médio, deixam muito pouco espaço para o enfoque necessário nos vizinhos do sul. Com isso, a experiência do presidente Biden e sua compreensão desses problemas serão necessárias na solução do desafio migratório que começa com a melhoria das condições dos países de origem.

Axel Christensen
Axel Christensen
Estrategista Chefe de Investimento na América Latina