ESTRATÉGIA DE RENDA FIXA

A perda de inclinação que realmente importa

29 ago 2018

A perda de inclinação da curva de rendimento dos EUA está no centro das atenções. Deve-se esperar uma inversão da curva como o prenúncio de uma recessão como já se viu no passado? Explicamos por que a comparação com os recentes episódios de perda de inclinação pode ser como misturar alhos com bugalhos. E argumentamos que, quando se trata de perda de inclinação, os investidores estão focados na curva errada: o que realmente importa é a perda de inclinação em expectativas de retorno entre ativos de alto e baixo risco.

Destaques de renda fixa

  • Somos desfavoráveis à comparação do formato da curva de rendimento atual do Tesouro dos EUA com curvas de rendimento passadas e a usá-las como um sinal de recessão isolado. Acreditamos que políticas monetárias pós-crise extremamente brandas, um crescimento estrutural da aversão ao risco e uma retirada de títulos em vencimento no balanço da época de crise do Federal Reserve podem tornar a inclinação da curva de rendimento menos informativa do que normalmente é.
  • Destacamos uma simples relação histórica entre a inclinação da curva de rendimento dos EUA e a “lacuna de desemprego”, que é uma medida de desaceleração do mercado de trabalho. As duas atingiram os níveis mais baixos dos últimos anos, sendo consistentes com seu comportamento histórico na fase mais avançada de ciclos econômicos. Esse fato sustenta a inclusão de resiliência nos portfólios.
  • A perda de inclinação que realmente importa, a nosso ver, é aquela que ocorre na linha do mercado de valores mobiliários. Ela mostra a compensação entre risco e retorno em diferentes ativos. Os retornos esperados de ativos de menor risco subiram juntamente com as taxas nominais de juros do Fed, reduzindo a necessidade de buscar rendimento em setores de alto risco. Isso provocou volatilidade no mercado de renda fixa e respalda nossa postura defensiva: uma preferência por títulos de crédito de curto prazo e maior qualidade nos EUA.

Instantâneo

O que a inclinação da linha do mercado de valores mobiliários está nos dizendo? As duas linhas representam os rendimentos do mercado mais amplo de renda fixa, ajustado ao risco, em 2012 (no meio da campanha de afrouxamento monetário do Fed) e em 2018. A linha de tendência de 2018 (verde) está muito mais inclinada do que a linha de tendência de 2012 (azul), uma vez que os rendimentos dos ativos de menor risco, como os dos títulos do Tesouro dos EUA, aumentaram significativamente junto com as taxas de juros americanas. Em alguns casos, a volatilidade de ativos de maior risco subiu, enquanto seus rendimentos caíram (veja títulos globais, exceto EUA). O resultado: uma perda de inclinação das expectativas de retorno em todo o espectro de risco, o que significa que os investidores têm hoje muito menos incentivo para fazer um esforço extra em busca de rendimento. Veja o gráfico O outro tipo de perda de inclinação.

Linha do mercado de valores mobiliários de renda fixa, 2012 vs. 2018
Jeffrey Rosenberg
Chief Fixed Income Strategist, BlackRock Investment Institute
Jeffrey Rosenberg, Managing Director, is BlackRock's Chief Fixed Income Strategist with responsibilities in developing BlackRock's strategic and tactical views.