Enfrentando as turbulências do mercado

Armando Senra |27 abr 2020

Estamos entrando em mares nunca antes navegados. Ninguém sabe ao certo quanto tempo vai durar a crise ou qual será o seu impacto econômico. Mas sabemos que vai passar, assim como as outras crises ao longo da história.

É por isso que o mais importante agora é não entrar em pânico diante da queda dos mercados, assim como controlar o excesso de otimismo quando os mercados se recuperarem. Os altos e baixos podem estressar até as pessoas mais experientes do mercado. Talvez faça sentido um pouco de “distanciamento social” do seu portfólio neste momento, desconectando-se da volatilidade diária. 

Na realidade, os investidores deveriam focar no longo prazo. Acreditamos que uma alocação diversificada de ativos é um fator fundamental para alcançar as metas de longo prazo, mais do que o “timing” em si. Afinal, é imensamente difícil saber acertar o tempo exato do mercado, comprando na baixa e vendendo na alta. Historicamente, o índice S&P 500 teve um retorno médio de 22% nos seis meses após o sell-off visto em 1962 e de 46% dois anos depois1. Por mais doloroso que possa ser, se você tiver um portfólio diversificado, é importante manter sua rota.

Mesmo assim, cada investidor é diferente. Os objetivos, a tolerância a risco e o estado atual de cada portfólio são cruciais. E ainda que não estejamos sugerindo que já se chegou ao fundo do poço, na perspectiva de longo prazo, os investidores deveriam continuar monitorando sua alocação de ativos e considerar o rebalanceamento em direção às ponderações estratégicas ou aproveitar as oportunidades que o mercado atual oferece.

Afinal de contas, o tradicional portfólio  de 60/40 (em outras palavras, 60% em ações e 40% em títulos, que geralmente é usado para representar uma alocação de longo prazo) poderia ter se convertido agora em um portfólio 51/49. Isso poderia significar que o seu portfólio deixou de estar alinhado com o risco que você estava disposto a tomar para alcançar seus objetivos. Da última vez que os mercados experimentaram tamanha volatilidade, durante a crise financeira de 2008/2009, os investidores que rebalancearam de volta às metas de alocação de ativos cada vez que desviaram mais do que 5% da meta tiveram um desempenho 1,77% superior aos que não o fizeram.2 Ainda assim, aqueles que continuaram investidos durante a crise se saíram muito melhor do que aqueles que perderam a retomada do mercado. Enfim, não se trata de tentar encontrar o fundo e sim de se manter na rota para alcançar seus objetivos.

Desvio em um mês da referência de ações para um portfólio 60/40, de 2006 a 2020

Desvio em um mês da referência de ações para um portfólio 60/40, de 2006 a 2020

O desempenho passado não é um indicador de resultados atuais ou futuros. Não é possível investir diretamente em um índice. Fontes: BlackRock Investment Institute, com dados do Refinitiv Datastream, março de 2020. Observações: O gráfico mostra o desvio contínuo de um mês a partir da ponderação de referência de ações para um portfólio hipotético de 60/40, ou seja, 60% em ações e 40% em títulos. Utilizamos o índice MSCI World e o índice Bloomberg Barclays Global Aggregate Bond para representar as duas classes de ativos.

Diante desse cenário, durante as últimas semanas, conversei com um grande número de instituições, analistas financeiros e outros investidores sobre como eles estão vendo a turbulência no mercado. Em resumo, apresento aqui cinco ideias sobre como reforçar o portfólio e torná-lo potencialmente mais resiliente, através dos ETFs iShares:

Mantenha a essência: a essência de um portfólio é a base de tudo, e normalmente consiste em uma combinação de ações e títulos de acordo com os objetivos e a tolerância ao risco do investidor. A velocidade das recentes quedas do mercado significa que agora pode ser uma boa hora para os investidores de longo prazo adicionarem a um portfólio diversificado de ações uma maior exposição a ações dos EUA, entre outras. Como falamos, isso poderia significar um ajuste do portfólio de volta às alocações de ativos estratégicas originais, algo como um reajuste do risco em favor de mais ações.

Concentre-se em exposições de qualidade: é provável que estejamos entrando em uma recessão, embora ninguém saiba ao certo qual seria a duração ou a gravidade. Se esse for o caso, poderia fazer sentido investir em empresas de alta qualidade, com sólido fluxo de caixa, resultados estáveis e baixo endividamento. Essas são as empresas que, historicamente, propiciaram algum grau de resiliência aos portfólios.

Minimize a volatilidade: diante da turbulência sem precedentes dos mercados, alguns investidores estão tentando mitigar a volatilidade enquanto mantêm a exposição à renda variável. Os investidores implementaram estratégias para reduzir o risco geral do mercado de ações recentemente através das chamadas estratégias de volatilidade mínima. De fato, estiveram entre os ETFs de mais rápido crescimento em 2019.

Adote estratégias ESG (ambiente, social e governança): acreditamos que as empresas com um ESG elevado terão um desempenho melhor em um cenário pós‑coronavírus e aumentarão a resiliência do portfólio. Essas empresas tendem a possuir atributos de qualidade: posição patrimonial sólida, negócios estáveis e forte governança corporativa. Em geral, elas cuidam bem de seus funcionários, sabem recrutar e reter os melhores talentos e usam os recursos de forma eficiente.

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Pensando no futuro: os investidores de longo prazo devem guardar na memória as mudanças estruturais que estão transformando nossa economia e nossa sociedade. Um exemplo: empresas com exposição significativa a muitas áreas em foco no momento, como dados em nuvem e redes de trabalho móvel, que estão substituindo velhas tecnologias e criando novos mercados, com o potencial de gerar resultados econômicos positivos. Outra área é o setor de saúde, impulsionado pelas mudanças demográficas: os norte-americanos acima de 65 anos estão a ponto de superar o grupo de até 18 anos pela primeira vez na história. Essa tendência está levando a mais pesquisa e desenvolvimento, trazendo grandes novidades em duas áreas promissoras, genômica e imunologia, que não estão apenas em evidência hoje em dia, mas também estão posicionadas para proporcionar um futuro mais saudável. Esses temas não são interessantes apenas porque viraram o assunto do momento. O investimento nessas “megatendências” estratégicas podem nos preparar para o longo prazo, pois demonstram valorações atrativas diante da queda generalizada. Ainda que algumas dessas áreas tenham tido um declínio menor do que o restante do mercado diante da crescente demanda no curto prazo, isso poderia realçar o apelo dessas tendências no longo prazo.

Em tempo: ao investidor no longo prazo, torna-se crucial escolher bem o veículo para fazer seus investimentos. Em tempos de turbulência, os fundos de índice iShares se mostraram um veículo de investimento confiável e indispensável. Eles podem ser eficazes na modelagem dos portfólios, oferecendo transparência, eficiência e qualidade. Sua resiliência se destacou nas últimas semanas, mas seu valor no longo prazo é ainda mais fundamental.

Armando Senra
Head de iShares para as Américas