Ações chinesas: a inclusão de ações do tipo
“A” no MSCI

30 mai 2018
por Christopher Dhanraj

Resumo

  • Vemos com simpatia o mercado acionário da China apesar das tensões que circundam o tema do comércio. Acreditamos que as ameaças protecionistas são basicamente uma tática de negociação. Além disso, as reformas do governo chinês, um ambiente de crescimento estável e uma perspectiva sólida de ganhos sustentam as ações.
  • A inclusão de ações do tipo “A” (A-Shares) no MSCI começará em junho de 2018, dando início a um acontecimento marcante, que é a abertura a investidores estrangeiros do segundo maior mercado de ações do mundo.
  • Os fluxos globais dos produtos negociados em bolsa (ETPs) mostram que os investidores estão encarando a China como um mercado específico, em vez de acessá-la por meio de uma exposição ampla a um índice de mercados emergentes.

Ainda há espaço para manobras

No ano passado, o mercado acionário da China esteve entre os ativos com melhor resultado no mundo. O índice MSCI China registrou alta de 54% em 2017, superando mercados emergentes mais amplos, que alcançaram 37%, e rendeu mais que o dobro dos 22% de retorno do índice S&P 500.1 Apesar do forte crescimento de 2017, continuamos vendo com bons olhos o mercado acionário da China em meio a um ambiente de crescimento estável, uma agenda de reformas ambiciosa e uma perspectiva sólida de ganhos.

De fato, as tensões comerciais recentes representam um risco. Contudo, entendemos que as medidas de comércio dos EUA contra a China são mais uma abertura de negociações do que o início de uma guerra comercial. Além disso, a abertura comercial da China teve seu auge na década passada com o aumento da importância dos geradores de crescimento no mercado interno, sugerindo que a economia pode estar relativamente protegida de efeitos de tarifas mais altas2.

Continuamos vendo uma sólida agenda de reformas após o 19o Congresso Nacional do Partido Comunista, que apoiou o afastamento da China da “velha economia”, baseada em crédito e na indústria pesada, em prol da “nova economia”, impulsionada pela tecnologia, pelos gastos com consumo e pelos serviços de saúde. Essa mudança para mercados de crescimento mais rápido e com menor dependência de crédito tem o duplo benefício de apoiar o crescimento agregado e permitir que os formadores de políticas mantenham a campanha de desalavancagem financeira sem sobrecarregar o crescimento. As declarações mais recentes do presidente Xi Jinping no dia 10 de abril no Fórum Boao destacaram alguns esforços por reformas visando à maior abertura dos mercados da China, o que pode ajudar a aliviar as tensas relações sino-americanas. Em especial, o presidente Xi definiu planos para abrir ainda mais a China com as seguintes medidas:

  • Ampliação do acesso ao mercado, elevando os limites máximos de capital estrangeiro no setor financeiro, diminuindo as restrições sobre instituições financeiras estrangeiras e reduzindo os limites sobre investimentos estrangeiros na indústria de transformação, inclusive na automotiva.
  • Melhora do ambiente de investimento, alinhando as políticas internas com as normas internacionais econômicas e comerciais.
  • Expansão das importações, reduzindo as tarifas de importação sobre veículos e sediando a primeira Expo Internacional de Importação da China, o que representa uma importante iniciativa política.
  • Fortalecimento dos direitos de propriedade intelectual, restituindo a Agência Estatal Chinesa de Propriedade Intelectual para fazer valer tais direitos e elevar as multas a fim de desestimular infrações.

China: grande demais para ser ignorada

A perspectiva positiva em relação à China ocorre paralelamente a uma mudança significativa da forma como os investidores podem ter acesso a ações chinesas. Em junho deste ano, o MSCI começará a incluir uma parte do mercado de ações chinesas do tipo “A” no índice MSCI Emerging Market, um índice fundamental para o acompanhamento de ações de mercados emergentes. Neste índice, a China tem atualmente um peso aproximado de 30%3 por conta de empresas chinesas com ações negociadas fora do país, a maioria delas em Hong Kong (ações do tipo “H”).

Até agora, os investidores estrangeiros tiveram acesso irrestrito a aproximadamente metade do mercado acionário da China (em grande parte por meio de ações do tipo “H”).  A metade restante é composta por ações do tipo “A”, ações “internas” que só estavam disponíveis para instituições estrangeiras mediante cotas restritas definidas pelo governo chinês.

O MSCI integrará gradualmente o mercado de ações de tipo “A”, que representa o segundo maior mercado de ações mundial em capitalização de mercado e giro.4 Para começar, um fator de inclusão de 2,5% adicionará 235 ações do tipo “A” de empresas de grande capitalização (“ações MSCI-A”) ao índice MSCI EM em 1º de junho de 2018.5 O fator de inclusão das ações do tipo “A” chegará a 5% em 3 de setembro de 2018.2 Esperamos que o impacto do fluxo inicial sobre os mercados seja relativamente mínimo por conta da adição baixa e gradual, primeiramente traduzindo-se em um acréscimo de menos de 1% sobre o peso da China no índice MSCI EM. Em dado momento, as ações do tipo “A” poderão representar 9% do índice amplo de mercados emergentes quando houver a inclusão de 50% dessas ações. A porcentagem poderá chegar a 17% após a inclusão total. A inclusão completa de 100% das ações do tipo “A” pode aumentar o peso da China no índice MSCI EM para mais de 40%.2 Para os investidores, ter uma visão de que a China está mudando sua estratégia de “é bom ter” para “é preciso ter” é algo simplesmente grande demais para ser ignorado.

Roteiro de Inclusão do Índice MSCI Emerging Markets

Uma explicação das principais classes de ações da China

Fonte: BlackRock e MSCI, 16 de abril de 2018. Observações: Componentes de índices sujeitos a alterações. *A porcentagem refere-se ao fator de inclusão aplicado à capitalização de mercado ajustada para livre flutuação de ações chinesas do tipo “A” no índice MSCI China pro-forma.

Consequências para os investidores

A inclusão de ações do tipo “A” proporciona aos investidores um quadro mais preciso, além de acesso, em relação ao mercado chinês. As ações do tipo “A” dão acesso a setores da economia atualmente sub-representados em outras classes de ações, com pesos maiores nos setores de materiais, produtos industriais, artigos de luxo e saúde. A “nova economia” da China (áreas como tecnologia, consumo e saúde) é representada em sua maioria no mercado externo de ações do tipo “H”. O fato de o mercado interno de ações do tipo “A” ser o segundo maior do mundo sugere que esses temas de crescimento secular estão atualmente sub-representados nos portfólios de investidores estrangeiros.

Felizmente, decidir entre ações do tipo “A” e “H” não é algo mutuamente exclusivo.  A natureza complementar da exposição a ações do tipo “A” também pode ser vista pela sua baixa correlação com mercados de ações globais. Recomenda-se que os investidores mantenham exposição a ambos os mercados, em vez de escolher somente um. Dadas as persistentes complexidades operacionais para estrangeiros e a grande quantidade de ações do tipo “A”, os investidores devem investir por meio de uma estrutura de ETF, o que remove os encargos operacionais e oferece exposição ampla, líquida e com bom custo-benefício.

Fluxos

À medida que crescer a concentração da China no índice de mercados emergentes, os investidores poderão encarar a China como um país específico e repensar os mercados emergentes como um grupo que não inclui a China. Os fluxos globais de ETPs sugerem que os investidores estão fazendo exatamente isso. Desde o ano passado, os fluxos de ações de mercados emergentes têm tido um foco cada vez maior em países específicos. O contraste é notável com os fluxos de mercados desenvolvidos, que vêm favorecendo uma exposição ampla. Além disso, há uma aceleração significativa de fluxos para economias emergentes específicas, lideradas pela China. Os fluxos para países emergentes específicos em porcentagem dos fluxos totais para mercados emergentes vêm aumentando. Eles chegaram a 18% nos últimos doze meses, 20% no acumulado do ano e 24% no último mês. No mesmo período, a China viu sua cota dos fluxos para países específicos passar de 28% em 12 meses para 50% no acumulado do ano. Porém, acabou retrocedendo para 43% com as apreensões comerciais afetando o sentimento de mercado em março.6 No entanto, a anualização dos fluxos do acumulado do ano e do último mês sugere respectivamente um aumento superior ao dobro e ao triplo dos fluxos dos últimos 12 meses.

Os fluxos de mercados emergentes estão cada vez mais direcionados a um país específico, e os fluxos para a China estão se acelerando

Roteiro para possível inclusão de 100% no índice MSCI Emerging Markets

Fonte: Global Intelligence Flash Report, 12 de abril de 2018

Conclusão: o apetite do investidor pela China está se acelerando significativamente, e os investidores têm cada vez mais acesso a exposições dedicadas à China, em vez de exposições amplas a um índice de mercados emergentes.

Conclusão

A abertura do mercado de ações do tipo “A” da China e a inclusão no índice são um marco para a comunidade global de investidores. Para investidores de longo prazo, a escolha por ações do tipo “A” em comparação às de tipo “H” é um falso dilema, dada a exposição complementar. A pergunta a ser feita é quanto alguém precisa ter de investimento na China no portfólio. Com a concentração da China em índices amplos de mercados emergentes crescendo além dos 40%, os investidores devem começar a olhar para a China e os mercados emergentes ex-China separadamente, assim como fazem com os EUA e os mercados desenvolvidos ex-EUA. Os fluxos globais de ETPs sugerem que os investidores estão começando a fazer exatamente isso.

Director
Head of ETF Investment Strategy